À meia noite no Laboratório

Por Rodrigo Rossoni

A escolha dos materiais fotográficos foi um dos maiores cuidados que tive durante a produção do trabalho. E isso não se resumiu apenas à escolha de um filme de qualidade, com tons de cinza expressivos e grãos destacados. Tudo foi escolhido com muito rigor: o filme, os químicos, o papel fotográfico e, principalmente, a forma de revelar as imagens. 

A película – Escolhi o Kodak TRI-X 400. Não vou negar que o fato de Salgado utilizar esse filme, na época, tenha interferido na minha escolha. Interferiu, sim! Comprei duas latas numa antiga loja do centro da cidade. No auge dos filmes, era muito comum os fotógrafos recorrerem à compra de latas porque barateava muito os custos. Cada lata permitia produzir cerca de 26 rolos com 36 poses cada. Era um trabalho artesanal, muito delicado e tudo feito em casa. Era uma prática simples. Os rolos vazios eram conseguidos nos minilabs de lojas de fotografia. Eu tinha milhares em casa. 

Os químicos – A escolha dos químicos também era uma decisão importante. Eles garantiriam a qualidade e também a característica estética da fotografia que buscava atingir. O mercado oferecia várias opções de reveladores com resultados distintos, o mais comum e mais barato era o Kodak D-76.  Usado sem o devido conhecimento, era muito agressivo aos grãos. Por ser considerado um revelador do tipo enérgico,  diminuía o tempo da revelação, mas produzia um alto contraste entre os tons pretos e brancos. Outra característica desse revelador estava relacionada a sua atuação em relação aos grãos. Deixava-os muito evidentes. Como eu usava o TRI-X 400, desde o início descartei o uso do D-76. 

Queria uma fotografia com grãos aparentes, mas que a granulação não interferisse nos detalhes da imagem. Por isso, a escolha pelos químicos da marca Ilford. Valorizados no meio fotográfico pela sua suavidade, evidenciavam os meios tons e garantiam grãos mais finos. Comprei um revelador específico chamado Ilford ID-11. Diluído em água na proporção de 1 para 3 sua suavidade era ainda mais estimulada. Isso interferia no tempo da revelação do filme. Enquanto o Kodak D-76 fazia o trabalho em 10 minutos, o Ilford ID-11 diluído em água (1 para 3), a uma temperatura de 18 graus, podia chegar a 16 minutos. Mas isso pouco importava. Os resultados eram fantásticos. E tempo era o que eu mais tinha.

O papel fotográfico – Também com muitas opções no mercado, a definição pelo papel pérola da ILFORD seguia os mesmos parâmetros. Eram eles que garantiriam os tons cinzas destacados e o preto e o branco nas densidades corretas.

Laboratório – Com os materiais em mãos, o laboratório era um lugar sagrado. Ali as fotografias nasciam e ali eu me realizava. As imagens latentes nos filmes estavam ávidas para ganhar vida. E eu, ansioso para trazê-las à existência.

Todo o trabalho foi realizado no Laboratório da Universidade. Mantinha um ritual cotidiano muito rigoroso. Chegava às 8h da manhã, preparava o ambiente com tudo  muito organizado. Nada podia dar errado. Com muito cuidado, diluía os químicos com água mineral e ainda filtrava o composto para eliminar quaisquer possibilidades de sólidos. 

Com tudo preparado, era preciso ainda atingir a temperatura de 18 graus do revelador. Só assim, entrava na câmera escura para colocar os filmes no carretel. Em um dia, eu revelava em média 10 filmes. O tempo de revelação de cada filme durava em média 1 hora e meia. Às vezes, já seguia para a ampliação das imagens.

Esse era o momento mais fascinante.  Quando vamos, de fato, conhecer os resultados da produção fotográfica.

O rigor no manuseio dos químicos continuava. Preparava as bandejas com o revelador,  o interruptor e o fixador. Todos com água filtrada com temperatura indicada pelo fabricante. Também deixava o tanque de água corrente funcionando.  Depois disso, cortava os papéis nos tamanhos ideais para fazer as tiras de teste. As tiras são mecanismos utilizados para se identificar o tempo correto de exposição à luz que cada fotografia vai necessitar.

Com ampliadores calibrados, lentes limpas e filtros ajustados, o primeiro passo era fazer a prova de contato. Cortava os negativos em tiras de 5 fotogramas. Colocava-os todos em um único papel e os expunha à luz por 10 segundos. Com isso, tinha no papel todas as imagens positivas. Isso permitiria visualizar as imagens e iniciar o processo de edição. Mas o contato não permitia ainda uma visualização aprimorada da imagem. Por isso, com as imagens pré-selecionadas no contato, voltava para o ampliador para novo procedimento: ampliar as imagens no tamanho 6x9cm.  Só depois disso, selecionava as imagens que seriam definitivamente ampliadas em 18x24cm.

Aqui começava um trabalho ainda mais meticuloso. Tiras de teste em mãos para identificar o tempo correto de exposição à luz. O problema é que, em muitos casos, uma imagem necessitava de diferentes tempos de luz para atingir a tonalidade ideal. Esse é um processo que exige paciência, habilidade e consumo elevado do papel fotográfico. Eu era paciente, tinha certa habilidade, mas com comportamento perfeccionista que, às vezes, atrapalhava o fluxo de trabalho.

Lembro da fotografia que estampou a capa da revista. Essa imagem foi uma das mais difíceis de se fazer. Ela tinha contrastes intensos. O olho da criança era verde e os tons de pele escurecidos. A luz que incidia na pele da criança era dura, provocando sombras em partes do seu rosto. Foram muitas tentativas e uso de muitas máscaras de luz. No total utilizei cerca de 20 papéis fotográficos para atingir, enfim, o resultado que eu esperava. Um custo alto.

Recordo com clareza que nesse dia, quando atingi os tons que eu perseguia, foi uma grande satisfação. Estava cansado, não do trabalho no laboratório, mas do embate com a imagem. Assim que finalizei a fotografia, já parti para outra imagem. Estava muito empolgado com o resultado anterior. Mas um leve movimento involuntário me fez observar, em meio à luz vermelha, o relógio digital afixado na parede. Surpresa a minha ao perceber que ele já cravava meia noite. Na minha percepção, não passava das 17h. Sem almoço, sem água, sem jantar e sem noção do tempo. O laboratório era verdadeiramente mágico!

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