A professora e o pé de mexerica

Por Rodrigo Rossoni

Um dos momentos mais marcantes da experiência de oito meses de oficina de fotografia foi, sem dúvidas, as práticas com as pinholes. Foi inusitado, estimulante e desafiador. Primeiro porque as crianças duvidaram de que uma lata de leite em pó pudesse produzir fotografias “de verdade”. Segundo, porque é uma prática que exige cuidado, concentração e paciência. 

Na pinhole, o acaso é companhia certa. Não se sabe como a fotografia de fato sairá. E, para realizar uma atividade como essa com crianças, tudo se torna ainda mais meticuloso. 

O importante é que elas toparam o desafio. Construíram elas mesmas a sua câmera e partiram para a prática. No início, era comum que dificuldades acontecessem. As primeiras imagens foram perdidas, mas com o tempo tudo se acertou. Compreenderam a forma de colar o papel no fundo da lata, os cuidados com a vedação do furo e, principalmente, o rigor do tempo de exposição diante de um sol escaldante. 

Resolvida a questão técnica, a dúvida que muitas vezes pairava era: “o que fotografar?”. Algumas crianças mais destemidas escolhiam rapidamente o seu objeto. Outras, contudo, demoravam um pouco mais para decidir, foi o caso de Joãozinho. Uma criança dócil, tímida e muito introspectiva. Joãozinho logo cedo ganhou minha admiração. Tinha oito anos de idade e falava pouco, mas vivia sorrindo. Muito carinhoso e também curioso chegou a me questionar sobre os motivos de eu ter ido ao assentamento com um carro diferente dos outros dias:

Meu carro quebrou, João. Pedi o da minha irmã emprestado.

E vocês têm dois carros? Disse ele.

Também me colocou numa sinuca de bico ao questionar a ausência de Bianca num dos dias da oficina. Eu respondi que não ela pode ir porque naquele dia tinha ido trabalhar.

 Ela  capina?  Rebateu ele.

O mais interessante de Joãozinho era a sua capacidade de observação e, por isso, o seu tempo era diferente dos demais…

Numa certa manhã de atividades com a pinhole, uma das professoras da escola do assentamento resolveu acompanhar a prática. Ela era uma mulher jovem que estava na escola temporariamente, substituindo a professora titular, afastada por questões de saúde. Glória (nome fictício) não era integrante do MST, nem morava no assentamento. Era uma professora da cidade escalada aleatoriamente pela secretaria de educação. 

Desde quando eu cheguei ao assentamento, me chamou a atenção o comportamento de Glória. De longe, ouvia-se os seus gritos na sala de aula. Comportamento extremamente oposto ao da outra professora que conduzia a terceira e quarta séries. Glória ministrava aulas para a primeira e segunda séries. Além dos gritos era muito evidente sua falta de habilidade para lidar com as adversidades de uma sala de aula. Era também notório a insatisfação das crianças com ela. 

Naquela manhã, não compreendi até hoje, Glória quis acompanhar as crianças na atividade com a Pinhole. Eu nunca escondi que preferia conduzir todas as atividades sozinho com as crianças, mas também não podia impedir que as professoras acompanhassem. 

Do grupo de doze crianças, uma não tinha decidido ainda o que fotografar. Demorou mais do que a média para fazer sua escolha. Aqui entra a saga de Joãozinho. Com a lata embaixo dos braços, rodou a escola, caminhou pelo pátio e observou muito o terreiro da sede. Inesperadamente, ele disse que queria fotografar uma Toyota, carro de carroceria muito utilizado na roça para transportar produtos e também por ter facilidade de se movimentar na lama. Logo que ouvi o seu desejo, informei a ele que infelizmente não poderíamos fazer a foto já que não tinha nenhum Toyota por perto. Era necessário, portanto, escolher outra coisa. Ele compreendeu e continuou sua observação. Passados alguns minutos, eis que surpreendentemente Glória decide tomar posição e, em tom autoritário impõe:

Vamos João, me fotografe então!

Constrangidíssimo, ele abaixou a cabeça e nada disse. Continuou na sua indecisão.

Não satisfeita com a atitude dele, Glória então, impaciente reiterou:

Vamos logo. Me fotografe e acabe com isso, João!

Pela segunda vez, ele olhou para mim e, com expressão de negação, abaixou a cabeça.

Seu olhar pedia ajuda, não para definir o objeto, mas para se proteger da imposição de Glória. Era um pedido de ajuda. Intercedi. Abracei-o e levemente falei bem próximo ao seu ouvido:

Não se preocupe, João. Pode ficar tranquilo. É você quem vai escolher o que fotografar. Faz o que você quiser.

Num súbito movimento, ele então disse para todos ouvirem:

Eu já sei o que quero. Vou fotografar o pé de mexerica!

Glória não esboçou nenhuma reação!

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