As lâmpadas de Valdene

Por Rodrigo Rossoni

Estávamos há três dias percorrendo carvoarias e canaviais pelo Norte do Espírito Santo, a sexta-feira era nosso último dia na região. Visitamos mais uma carvoaria pela manhã e, depois do almoço, um canavial próximo ao mar de Urussuquara. De volta à nossa cidade base, São Mateus, por volta das 18h, o cansaço e a tensão pelo que vivenciamos nos últimos dias eram intensos. A experiência de conhecer realidades tão dramáticas e sem uma via de mudança mexeu muito com todos nós. 

Como de costume, fomos fazer um lanche num trailer que ficava próximo à rodoviária da cidade. Durante a alimentação conversamos pouco. Os olhares se desviavam e a angústia era evidente. Comemos rápido e retornamos para o carro. O desejo era tomar um banho e, rapidamente, cair na cama. 

Já no veículo, quando fechamos as portas, uma criança nos abordou. 

— “Oi, vocês podem me ajudar com um dinheiro? É para eu ajudar a minha mãe”. 

Apesar de cansados, aquela seria uma importante situação para conhecer a história daquele menino. Ele nos abordou quando já estávamos dentro do veículo, e assim continuamos. Na condição de motorista, então, eu lhe disse: 

— Claro que sim. Como é o seu nome?

A pergunta deixou-o desconfiado já que, segundo ele, é raro alguém perguntar o seu nome. Por isso, logo soltou:

— “Vocês são do juizado de menores?”

Tentei tranquilizá-lo para que a conversa pudesse fluir. Disse-lhe que éramos jornalistas. Ele pareceu entender. Mas continuou desconfiado. 

Seu nome era Valdene, uma criança de sorriso largo e muito gentil. A conversa foi se desenrolando com ele em pé, ali do lado de fora do veículo. Perguntamos onde ele morava, quem eram seus pais e se ele estudava. Valdene foi nos contando as coisas mais básicas, mas aos poucos fomos ganhando sua confiança.  Estudava pela manhã, à tarde frequentava um projeto social chamado Araças e à noite vigiava carros no centro para ajudar a mãe, que estava desempregada. Seu pai morreu atropelado quando ele tinha 9 anos de idade, por isso, sua participação na renda da casa era importante.

Valdene contou-nos sobre as dificuldades de trabalhar nas ruas, principalmente em relação aos meninos mais “experientes”, segundo ele: 

— “Eles batem em mim para tomar o meu dinheiro. Andam sempre em três e têm canivete”.

A sua tristeza se revelou evidente em relação ao preconceito com que as pessoas olhavam para ele. 

— “Olham para mim com cara feia ou com medo. Pensam que eu vou roubar ou atacar elas. E eu não faço isso. Só estou trabalhando e preciso desse dinheiro”. 

Com o passar do tempo, a conversa foi ganhando tons mais dramáticos. Valdene começou a contar os dilemas da sua vida. Das dificuldades com alimentação, do esforço da mãe de cuidar de quatro filhos sozinha e dos perigos que corria às noites. Falou da casa que tem dois cômodos, da forma como dormem todos amontoados em uma única cama e do dia em que quase morreu. 

Com o aprofundar da conversa, confesso que o meu estado emocional já estava em níveis elevados. Era como se eu não fosse mais eu. Eu vivia como se fosse Valdene, contudo com a minha consciência. O processo de empatia foi inevitável. Nos poucos momentos de pausa, a gente fazia algumas perguntas e ele respondia com muita franqueza. Lá pelas tantas, eu fiz uma pergunta muito simples. 

— “Valdene, sua casa tem energia elétrica? 

A simplicidade da pergunta obteve uma resposta também muito simples, mas com um desenrolar devastador para todos nós. Disse ele:

— “Energia a gente tem sim.  Só que já tem duas semanas que a lâmpada queimou. Estamos no escuro. Mas hoje eu trabalhei o dia todo e consegui juntar R$2 reais”.

Nesse momento, ele se afastou do carro. Deu um passo para trás e continuou:

— “Aí eu fui na loja e comprei duas lâmpadas”.   

Ele meteu as mãos no bolso, retirou as lâmpadas e nos mostrou.

Esse gesto inesperado e inusitado foi uma apunhalada no peito. Senti o peito apertar e os olhos lacrimejarem. Um misto de desespero e angústia profundos tomaram conta de mim. Tentei segurar as lágrimas. Olhei para o lado para respirar um pouco e me esquivar. Mas, ao olhar para o lado, me deparei com minha colega, Ana Paula, em prantos. Não tive saída. Foi mais forte que eu. Abaixei a cabeça e as lágrimas foram inevitáveis.

O gesto de Valdene, uma criança com tantas responsabilidades, desamparada pelo estado e pela sociedade nos abateu. Chorei muito. Perdi o chão e a noção de realidade.

Naquele momento, já fragilizado por tudo o que havia vivenciado naqueles dias, não tive vergonha de me expor diante dele. 

É bem possível que Valdene nunca tenha entendido e talvez nunca entenderá porque três adultos choraram tanto diante dele simplesmente porque viram uma lâmpada.

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