Livro de fotografias sem fotos na capa?

Por Rodrigo Rossoni

Definir a capa foi a etapa mais difícil do processo de editoração do livro. Eram 20 anos de história fotográfica. Mais de 250 fotos compõem o livro. Qual a melhor imagem para estampar a capa?

Essa dúvida pairou por meses. Inicialmente, eu não gostava da ideia de ter fotos na capa. O livro aborda três momentos muito distintos sobre as mesmas pessoas. Escolher uma foto específica poderia limitar essa história a um universo peculiar, e era justamente isso que eu não queria que acontecesse. A própria trajetória do livro evidencia o processo de mudanças identitárias e a transformação econômica das famílias. Coerente com o discurso do livro, queria muito evitar alguns clichês que normalmente vemos nas capas de livro sobre o MST. Geralmente são imagens de manifestações, marchas, a terra, a bandeira, todas elas acompanhadas por fortes cores vermelhas na tipografia.

O livro nos mostra que o MST conseguiu ir além de adquirir terras. A partir dela novas conquistas vieram como a residência, escola, bens materiais, viagens, planejamento de vida e acesso ao consumo cultural. Ou seja, adquiriram uma condição de cidadania que nos tempos de acampamento inexistia.

Todas essas questões foram dialogadas com a designer do livro, Gabriela Nascimento, para facilitar a ideia da capa. Pedi a ela para fazer um esboço de capa sem fotos. Lá em março de 2020, antes mesmo de finalizar a escrita, ela me enviou uma proposta. Como ainda era muito cedo, deixamos o projeto guardado. Com o avançar da escrita e o início da editoração, uma das fotos de 2003, chamou muito a atenção de Gabriela. Ela, portanto, apresentou mais uma opção de capa, agora com foto. Quando recebi o material, mudei minha ideia inicial. De bate pronto, parecia um desperdício não usar aquela capa. Ficou visualmente muito instigante e plasticamente bela. Pedi que fizesse alguns ajustes básicos para valorizar alguns pontos da imagem. Ela os fez. Mas o meu pedido modificou a proposta original.

Estávamos nas etapas finais da editoração do miolo do livro, mas para mim a capa já estava definida. Acontece que o resultado da mudança que eu sugeri pareceu não agradar Gabriela. Designer experiente, quando eu perguntei o que ela achava, avaliou que a nova capa trazia alguns problemas com a lombada e com a contra capa, mas ponderou que a escolha seria minha. De qualquer forma, eu parecia estar seguro da minha escolha.

Para alívio de Gabriela, eu acabei retomando a discussão sobre os momentos distintos que o livro apresentava e expressei um leve incômodo, apesar de bela plasticamente, com o fato de a capa ter uma foto que remetia ao cenário identitário de 2003. 

Eis que dois dias depois, ela me apresenta uma quarta opção de capa sem fotografias e também nenhuma inserção cromática. Gostei muito dessa proposta. Num primeiro momento, tive certeza de que agora sim teríamos a capa. Ficou muito elegante, discreta e sem nenhuma referência aos repertórios que remetiam ao MST. Decidimos. Esta era a capa do livro. Fiquei aliviado e, momentaneamente, feliz. 

Finalizamos a editoração, revisamos cada canto do livro e os arquivos foram enviados para a gráfica Ipsis. Como no contrato havíamos acordado que a gráfica faria provas de impressão, ficamos esperando o retorno do material. Acontece que nesse período, algo muito intuitivo, começou a revelar um novo incômodo com a capa. Não dei relevância porque os arquivos já estavam na gráfica. Não adiantaria mais sofrer com isso. A escolha foi feita. Tentei me livrar desse pensamento, mas era impossível. Abri e reabri o arquivo da capa em PDF umas 30 vezes. Havia algo ali que não se encaixava. A tipografia do título era pequena demais. Havia muitos espaços pretos e a distribuição das palavras não me agradavam mais, enfim.

Mesmo vivendo esse dilema, não comentei nada com Gabriela. Passaram-se os 8 dias e as provas da impressão chegaram na editora. Eram 20 páginas impressas além da capa. Marcamos para ver juntos. Olhamos página por página. Tudo muito bom. Por fim, fomos ver a capa. Também com impressão impecável, contudo com algo que não me agradava.

Quando já estávamos finalizando nossa reunião, do nada, Gabriela fala para mim :

— Está tudo certo? Podemos liberar para a impressão? Se tiver alguma coisa que você não gostou, a hora de falar é agora.

Aquilo me animou. Perguntei:

— E podemos mudar alguma coisa ainda?

— Sim. Disse ela

Foi mais forte do que eu.

— A capa. Será que poderíamos pensar naquele projeto original de 2020 com o título tomando toda a capa?

— Sim. Podemos. Vou fazer a arte e te mando.

Que alívio. Quando ela me enviou a quinta versão da capa que, na verdade, foi uma melhoria da primeira, senti que tínhamos chegado ao ponto certo.

 

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