Fotógrafas precisam de câmeras!

Por Rodrigo Rossoni

As oficinas de fotografia no Assentamento Piranema caminhavam para a sua etapa final. Estava chegando o momento de distribuir as câmeras fotográficas para todas as 34 crianças que participaram da prática educativa. 

Desde o início, eu sabia que teria de disponibilizar as câmeras e filmes para todas elas. A previsão era de que eu comprasse os equipamentos e depois doasse para a escola. Contudo, como não tive financiamento para o projeto nem para a pesquisa, todos os custos com transporte, alimentação, químicos, papel fotográfico, material de papelaria para as oficinas e os 34 filmes fotográficos para a última etapa foram financiados por mim mesmo. Com isso, faltaram recursos para comprar as câmeras.

Mas o projeto não podia parar e, como fotógrafas precisam de câmeras, a alternativa foi movimentar a rede de amigos para conseguir os equipamentos emprestados. 

No início, temia que não desse certo. Mas, diante da realidade que se apresentava, foi a única saída. 

Em 2003, eu já atuava como professor de fotografia em uma faculdade privada em Vitória. Divulguei para os meus amigos professores que passaria nas suas salas de aula para pedir a contribuição dos alunos. E assim aconteceu. Percorri todas as salas, informando da necessidade de conseguir câmeras fotográficas compactas. Naquele ano, ainda era comum as pessoas possuírem máquinas analógicas em casa, mesmo que não as usassem para fotografar. A resposta dos alunos e dos professores foi muito positiva. Consegui 24 câmeras automáticas de visor lateral. As máquinas foram todas identificadas porque seriam devolvidas ao final das oficinas.

Com essa quantidade foi possível realizar a atividade. As crianças foram divididas em dois grupos. Assim todas foram contempladas.

Numa quarta-feira o primeiro grupo recebeu o equipamento. E, na quarta seguinte, o outro grupo pôde ficar com as máquinas também por uma semana.

No momento da entrega das câmeras, as únicas orientações foram:

  • Tudo o que você quiser fotografar coloque aqui nesse visor. E aperte o botão para fazer o registro. Só isso. 

As câmeras automáticas se encarregariam de mover o filme para o próximo fotograma, bem como realizar todas as operações do fotômetro, obturador e diafragma. 

As crianças não foram orientadas sobre o que fotografar, quando fotografar, onde fotografar e por que fotografar. As escolhas foram totalmente realizadas por elas, sem nenhuma influência da minha parte.

Todas as câmeras foram equipadas com filmes coloridos, de 36 poses, com sensibilidade ISO 100. A escolha por essa sensibilidade estava relacionada ao preço mais baixo do produto, ao mesmo tempo em que me possibiliataria fazer grandes ampliações. 

No dia de recolher os filmes, eu e Bianca tivemos o cuidado de identificar todos os rolos com o nome dos fotógrafos. Todos, não. Menos um. Uma das crianças não entregou o seu filme. O fato inusitado é que ele fotografou tudo o que queria. Depois retirou o filme da câmera e o jogou no fogo. Suas fotos viraram cinzas. Essa história instigante está disponível na íntegra em um artigo, aqui no site, com o título Fotografias Imaginadas.

Com os filmes que foram entregues, revelamos e ampliamos as fotos em um minilab de shopping. Tivemos o mesmo cuidado para identificar os envelopes. Ao receber as fotografias, muita curiosidade e expectativa. O resultado foi fabuloso. Produziram um belo material visual sobre a sua cultura e identidade como você poderá apreciar no livro. Todas as fotografias foram entregues para os respectivos fotógrafos em formatos 10×15 cm e, depois da exposição em 40×60 cm. 

E, as câmeras, devolvidas integralmente sem nenhuma avaria para os seus donos.

 

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