O encontro com Sebastião Salgado

Por Rodrigo Rossoni

Estávamos em frente à residência de Salgado em Vitória. Fernanda estava muito empolgada para entrar. Mais do que eu, que ainda desconfiava de tudo.

Ela mesma tocou a campainha.

Uma voz de mulher ecoou pelo interfone: 

Pois, não?! 

Bom dia. É da casa de Sebastião Salgado? Perguntou Fernanda.

Sim. É sim. Respondeu a mulher

Ele está? Continuou Fernanda.

Sim, está? Quem é? Perguntou a mulher.

Somos da Universidade. Diz a ele que é Rodrigo, o fotógrafo da exposição que ele viu ontem no Centro de Convenções.

Tudo bem, vou falar. Um momento…

Passaram-se alguns segundos e, de repente, quando a gente menos esperava, eis que surge, no fundo da casa, o próprio Salgado. Vejo ele por entre os gradis, veio caminhando lentamente, descalço e sem camisa. Usava uma bermuda que chegava aos joelhos. Deu um sorriso e nos cumprimentou. Abriu o portão e nos convidou para entrar.

Se até então tudo parecia ser uma ficção, a partir dali eu tive certeza de que era. Foi estranho como tudo aconteceu, ainda não tinha caído a ficha. Salgado era mais do que um fotógrafo importante. Havia uma admiração profunda pelo seu trabalho e por sua postura. Eu sabia quase tudo sobre sua vida profissional. Conhecia todos os seus projetos, tinha visto milhares de entrevistas e lido uma centena de reportagens sobre a sua trajetória. E, eis que eu estava ali dentro da sua casa, sentado ao seu lado.

E então, tudo bem com vocês? Disse ele.

Tudo bem. Respondi.

Quer dizer que aquelas fotos são suas? Indagou Salgado.

Sim, são. É o meu trabalho de conclusão de curso na universidade.

Ela me falou. Disse ele olhando para Fernanda. E continuou:

Inclusive, eu ganhei uma revista. Espera um pouquinho. Levantou-se e entrou em uma parte da casa.

Logo em seguida, retorna com a revista “Um Olhar Sobre a Infância” nas mãos. Aquele gesto de guardar a revista em sua casa e estar ali tão fácil de localizar foi muito interessante. Demonstrou o cuidado que ele teve com o meu trabalho.

Sentou-se novamente e o diálogo prosseguiu com ele folheando a revista.

Suas fotografias são impactantes. Passam uma emoção muito forte. Isso é muito bom. Elogiou ele.

Você tem culpa nisso. Eu disse sorrindo. E continuei:

Você sempre foi uma grande inspiração e referência para mim. Por isso, não podia perder a oportunidade de vir aqui hoje te conhecer”.

Obrigado. É sempre bom saber que o nosso trabalho ajuda pessoas e contribui para a formação de novos fotógrafos. Agradeceu e me fez uma recomendação.

Em toda sua trajetória profissional, nunca se afaste desse tipo de trabalho social. Não se deslumbre com dinheiro, fama ou bens materiais. Eu conheci muitos bons fotógrafos americanos que começaram com projetos muito interessantes, mas no meio do caminho a fama e o dinheiro desviaram eles. Hoje andam com carros de mais de 100 mil dólares e moram em apartamentos de luxo. Nada contra, cada um faz o que quer. O problema é que isso tudo interfere no trabalho, nas escolhas e nos compromissos. Não deixe isso te tomar. Siga nesse caminho que você começou a trilhar. Você é jovem, seu trabalho é bonito, sensível e traz muita emoção, como poucos que já vi por aí. É um trabalho social relevante. Não perca isso de vista. 

Naquele momento, ouvindo tudo aquilo, senti uma grande realização. Ouvir isso do próprio Salgado foi uma felicidade tremenda.

Eu só tenho a agradecer, primeiro pela gentileza de nos receber aqui na sua casa e, segundo, por tudo isso que acabou de me dizer. Você é referência para mim, não só pelo seu trabalho fotográfico, mas principalmente por sua postura como ser humano. E para mim, estar aqui hoje com você é a realização de um sonho.

Feitos os elogios, a conversa foi caminhando para a discussão sobre as possibilidades para jovens fotógrafos pelo mundo. Ele falou de algumas instituições que ofereciam bolsas para fotógrafos. Disse que a Amazonas, sua agência, não fornecia ainda esse tipo de oportunidade, mas poderia ser uma possibilidade futura.

Nesse momento, voltou a me aconselhar:

Se concentre em trabalhos mais próximos da sua realidade. Tem muita coisa a fazer aqui por perto. Com um trabalho consistente e com continuidade isso vai te render bons frutos.

Ouvia tudo muito atento. Fernanda também falou muito pouco. E, de fato, a ideia era ir lá para ouvi-lo. 

Depois de uma hora de conversa, chegou o momento de nos despedirmos. Agradecemos mais uma vez pela gentileza e pelo cuidado de nos receber. Ele também agradeceu por nossa visita e nos desejou um bom dia.

Saímos da casa de Salgado e eu ainda estava anestesiado com tudo, mas, lembrei de dar um abraço de agradecimento à Fernanda. Ela teve papel fundamental nisso tudo. 

Saí realizado desse encontro, e com um nível de admiração muito mais profundo, não pelo fotógrafo, mas pelo cidadão Sebastião Salgado.

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