Uma figura ilustre em minha exposição

Por Rodrigo Rossoni

O ano era 1999, Vitória-ES iria sediar o Congresso Internacional de Telejornalismo. Um dia antes da abertura do evento, eu recebi uma ligação da secretaria de comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo me convidando para expor o documentário sobre a exploração do trabalho infantil e a infância no MST, no estande que a UFES teria no congresso. Era um espaço pequeno, mas de muita visibilidade. A recomendação era que eu selecionasse até 20 fotografias. Gostei muito da ideia e logo me adiantei para escolher o conjunto para essa exposição. 

No outro dia pela manhã, eu já estava com todo o material preparado para fazer as colagens na parede. Cheguei por volta das 9h e, em pouco mais de uma hora e meia, já estava tudo pronto. A abertura do congresso estava marcada para às 19h. Como eu trabalhava em redação de jornal, dificilmente estaria lá. E foi o que aconteceu.

Mas, no outro dia, no final da manhã, fui visitar o estande para saber como estavam as coisas. Logo que cheguei, a monitora que cuidava do  estande, Fernanda Portela, saiu correndo em minha direção muito ofegante. E já foi dizendo:

— Rodrigo, Rodrigo, você não acredita no que aconteceu! Adivinha quem esteve aqui e viu as suas fotos?

Como eu poderia saber! Tantas pessoas passaram pelo evento.

Curioso, perguntei quem era.

Ela não respondeu de imediato. Foi contar como tudo aconteceu. 

— Eu saí do estande para tomar uma água e dar uma volta. Estava tudo vazio porque as pessoas estavam lá dentro do auditório. De longe, observei que alguém se aproximou para ver as fotos. Peguei minha água e fui retornando em direção ao estande. Quando cheguei mais perto, um susto. Sabe quem era?

— Não, Fernanda, fala logo!

Sebastião Salgado. Disse ela vibrando. 

— Quem? Não acreditei. 

A reação imediata foi uma confusão de sentimentos. Fiquei surpreso, feliz, mas decepcionado por não estar lá naquele momento. Como que no dia em que Salgado está na minha exposição eu não estava lá?

E aí, o que ele disse?

Ainda muito empolgada, ela relatou que o cumprimentou e disse que ele poderia ficar à vontade para apreciar as fotos. Ele agradeceu e logo perguntou quem era o fotógrafo.

Ela respondeu que era Rodrigo Rossoni, um fotógrafo recém formado na universidade e que aquele era o seu trabalho de conclusão de curso de graduação. E por fim, ainda acrescentou:

— Ele adora você. O sonho dele é te conhecer.

Muito gentilmente, segundo ela, ele fez elogios às fotografias. Disse que o trabalho era muito sensível. Para a surpresa dela, ele ainda completou:

— Eu estarei na cidade até amanhã. Caso ele queira me conhecer pode vir à minha casa.

Não acreditei no que ela me contava. 

— Fernanda, você está falando sério? Ele disse que eu poderia ir à casa dele?

— Seríssimo! Ela reiterou.

Minha desconfiança era compreensível já que, em 1999, Salgado estava no auge do sucesso mundial. Parecia ser uma pessoa inacessível.

Quando os ânimos se acalmaram, eu perguntei a ela:

— Será mesmo que eu devo ir?

— Não só deve ir como eu também vou com você. Eu sei onde é a casa dele. 

Motivado por Fernanda, criei coragem e decidimos ir à casa de Salgado, que se localizava há mais ou menos 10 minutos do Centro de Convenções. Queríamos chegar antes do horário do almoço para não incomodar. 

Já no bairro, foi fácil identificar a casa. Estacionamos bem em frente. De fora, dava para ver os jardins internos e partes da casa, já que não era cercada por muros e, sim, por um gradil muito bem cuidado.

Até ali, tudo parecia uma ficção. Não estava certo de que realmente iria me encontrar com alguém que tinha sido uma grande referência e inspiração para a minha formação fotográfica. Havia muita admiração de minha parte por Salgado. Ao mesmo tempo, em minhas mais longínquas imaginações, o meu encontro com ele, caso acontecesse, seria em algum evento, uma exposição. Jamais seria na sua casa… 

Quer saber como foi esse encontro? Leia o próximo texto e viaje pelas memórias comigo. 

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