Vaquinha inusitada

Por Rodrigo Rossoni

A primeira vez que apresentei a pesquisa sobre os modos de construção da identidade das crianças do MST foi no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom, no Rio de Janeiro, em 2005. O evento aconteceu na primeira semana de setembro na UERJ. O artigo foi aprovado para ser apresentado no NP de Fotografia, coordenado pelo professor e pesquisador Fernando de Tacca.

A minha apresentação era a segunda daquela manhã, compomos a mesa eu e mais outros dois pesquisadores. Lembro que chamou a minha atenção o auditório com formato de palco italiano, mais precisamente uma estrutura de concha acústica. O auditório estava lotado, deu até um frio na barriga. Tínhamos apenas 20 minutos para apresentação. Após as falas dos três integrantes da mesa, seria aberto um espaço para perguntas do público.

Enquanto o primeiro pesquisador apresentava o seu trabalho, fui organizando mentalmente a estrutura da minha apresentação. Começaria com uma introdução geral, passaria para metodologia da pesquisa, as referências teóricas e os resultados. Contudo, sabia que era preciso criar uma dinâmica de apresentação para que o público se interessasse pela história. 

Assim que chegou a minha vez, perguntei ao coordenador se eu podia fazer a apresentação em pé. Com a resposta positiva, me senti mais livre para conduzir o trabalho. A cada tópico apresentado ia observando a reação das pessoas e avaliando o grau do seu interesse. Quando cheguei às imagens, o fascínio do público se mostrou mais evidente. A cada fotografia exibida no projetor, reações de sorrisos, surpresas e até algumas palmas. Finalizei a apresentação e o auditório em peso aplaudiu. Tenho certeza de que eles aplaudiram, na verdade, as fotos das crianças. 

Voltei para o meu lugar e o terceiro integrante da mesa fez a sua apresentação. Quando o coordenador do NP abriu para as perguntas, muitas delas, a maioria, foram direcionadas para mim. O próprio Fernando de Tacca me perguntou sobre o financiamento dos custos das oficinas e do projeto como um todo. Disse ele:

Rodrigo, você teve apoio financeiro de alguma agência de fomento. Ou seja, quem financiou o projeto?

Peguei o microfone e respondi:

Tive sim. Da RR representações.

O próprio Fernando perguntou:

O que é RR representações?

RR é Rodrigo Rossoni, disse eu brincando.

O público presente riu. E continuei:

Tenho outra informação importante. Hoje é dia 5 de setembro, daqui a um mês e pouco, no dia 13 de outubro, nós vamos fazer uma exposição fotográfica na Galeria da UFES, em Vitória. As famílias do Assentamento estarão presentes. Se vocês me perguntarem quem está financiando a exposição e todos os custos, eu também vou responder RR representações. Eu não tenho ainda todo o dinheiro, mas podem ter certeza de que no dia 13, as exposição vai acontecer. As fotos estarão expostas e as famílias presentes. Todos vocês estão convidados. Podem ir.

Surgiram outras perguntas referentes ao trabalho e, passados mais ou menos 20 minutos, o coordenador finalizou a manhã de apresentações. Ao descer do palco, fui cercado por estudantes que queriam saber mais detalhes do projeto e também querendo me entrevistar para atividades da universidade. 

Conversei por mais uns 15 minutos e quando já estava saindo, um colega de Vitória, Fábio Govêa, se aproximou e me entregou um porta cartões, uma pastinha dessas que colocamos cartões de banco ou de visitas. De imediato, pensei que fosse alguns contatos telefônicos ou até mesmo perguntas escritas que não puderam ser lidas durante o diálogo com o público. Quando abri, uma surpresa muito inusitada:

Na pastinha, havia notas de dinheiro e também folhas de cheque. Perguntei:

O que é isso, Fábio?

Quando você disse que ia fazer a exposição e não tinha patrocínio, Fernando teve a ideia de fazer uma vaquinha ali na hora com o público. Então, cada um contribuiu da maneira que pôde.

Fiquei tão feliz e grato pela iniciativa de Fernando de Tacca que procurei por ele, agradeci e lhe dei um abraço.

Na pasta, havia R$472 reais! Na época, em 2005, o dinheiro bancou toda a ampliação das 31 fotografias no formato 40 x 60cm. A exposição aconteceu na data prevista. Nos materiais de divulgação, como cartaz, banner e outdoor, estava escrito: 

Patrocínio: NP de Fotografia – Intercom.

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